Uma primeira relação com os livros revelou-se ambivalente: desagrado porque impunham obrigação de estudar e a relação com os professores era austera e repressiva, logo, os professores perderam importância e os livros ganharam uma primeira etiqueta - chatos, a evitar. O livro ganhou importância como sinal de tédio, chatice, veneno, que lentamente, envenenou a memória dos professores a eles associados. A biblioteca da escola era imensa, aboletada de livros, frios, hiráticos, imensos, enormes, mudos de morte. Com eles não parecia haver diálogo possível. A vastidão da sala de biblioteca, vetusta, austera, silenciosa, medonha, covil de tesouros não reclamados, suscitava mais medo que atracção. Esta é a primeira imagem que guardo da biblioteca da Secção Pina Manique da Casa Pia de Lisboa e à qual associo a figura do Dr. Oliveira Martins (ano possível de 1956 ou mesmo 57).
Interesse, porque alguns dos seus conteúdos eram vivos, falavam de pessoas em acção: aventura, naufrágio, combate, viagem, negócio, roubo, enfim, acção. Esse potencial de interesse e de evasão que os livros possuiam, revelou a possibilidade de substituir a personagem real do professor monótono, monocórdico, cinzento, por um espaço de construção pessoal, criando uma testa de ponte de fuga para a frente. Essa espécie de passagem secreta que os livros revelaram funcionava lindamente nas aulas, criando uma certa espécie de certeza: há paraísos onde nem todos os professores cabem e lugares onde nem toda a autoridade chega! Como numa espécie de teleportação imaterial, o corpo ficava sentado na carteira, numa atitude de presença física, material. A mente trespassava a janela da sala de aula, saía do corpo, procurando pessoas, coisas e lugares que só existiam nos livros, alheia aos condicionalismos da temporalidade. Para trás, ficava o mundo cinzento e pouco expressivo da sala de aula; à frente abriam-se vias com atractores estranhos, mas, de enorme poder apelativo, criadoras, motivadoras, tentadoras, cúmplices, substanciais. Eram tempos difíceis (1956), para um jovem crescendo à margem da família, num ambiente de internato concentracionário, com a obrigação de estudar sem estímulo, sem recreio e com o futuro por incógnita. Ainda que induzindo situações de bipolaridade afectiva, eram sempre as páginas dos livros que ofereciam porto de abrigo ao "batel" de uma imaginação atormentada que se comprazia em negação e revolta. Naquele texto "Homem ao mar", relato trágico, de cujo autor não ficou registo, sobre o desaparecimento de um jovem grumete nas águas do atlântico, numa noite de vaga cavada, suscitava o óximero de um futuro/sem futuro, a que nos expunha a falta de capacidade da escola em universo concentracionário para apontar o caminho agradável para o futuro. O livros, os livros, oh! os livros! Não fosse eles e nem o que significa oxímero chegaríamos a saber.Desta relação de transferência de conteúdos,modelação de experiências, saberes e renovados interesses foi possível desenvolver outras plataformas de abordagens das potencialidade dos livros.
terça-feira, 22 de setembro de 2009
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